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"FAIXAS-PRETAS" ECONOMIZAM BILHÕES NAS EMPRESAS


    Uma elite de profissionais especializados em lutar para resolver os mais intrincados problemas ganha espaço
também no Brasil.



Extraído do Jornal Gazeta Mercantil
Empresas & Carreiras
São Paulo, terça-feira, 21/03/00

Direitos autorais reservados
à Gazeta Mercantil
Por Yan Boechat


O engenheiro de processos Pedro Tchmola conseguiu economizar US$ 175 mil por ano para a Kodak do Brasil sem grande investimento adicional. Com alguns meses de trabalho duro, uma boa dose de criatividade e muita análise estatística, Tchmola percebeu uma redundância no controle de qualidade da divisão Produtos para a Saúde, responsável pelos filmes para raio-X. Muitas vezes, o trabalho era repetido sem resultados significativos. Com a redução do número de profissionais no setor e a modernização de alguns equipamentos, Tchmola fez com que a quantidade de testes caísse 75%.

P
edro Tchmola é um Black Belt (faixa-preta). Faz parte de uma elite que nos últimos anos vem ganhando espaço e poder nas empresas de todo o mundo e que, agora, estão prestes a se transformar em coqueluche também no Brasil.(...)

B
aseada em poderosas análises estatísticas e empregada por profissionais habilitados para resolver os mais intrincados problemas, o Seis Sigma se propõe a chegar próximo da perfeição. Ou seja, 3,4 defeitos para cada milhão de operações, sejam elas na área de manufatura, sejam na administrativa. Por meio dos dados estatísticos, os Black Belts vão cercando a falha até o que a provoca e fazem a correção. Chegar ao Seis sigma é conseguir atigir 99.9999998% de produtos perfeitos. Hoje , estima-se, a maior parte das empresas está no nível Três Sigma, o que significa 60 mil defeitos por milhão.

J
ack Welch, o todo poderoso CEO (Chief Executive Officer) da GE, atribui ao Seis Sigma o sucesso da companhia nos últimos três anos, o melhor período da sua história em um século. Só em 1999, projetos ligados ao Seis Sigma proporcionaram uma economia de US$ 2 bilhões para a GE. A Motorola garante que em pouco mais de 10 anos conseguiu deixar de perder mais de US$ 11 bilhões. Na Kodak brasileira, onde o programa está em operação há três anos, foram economizados US$ 15 milhões.

N
ão há nada de propriamente novo no Seis Sigma . As ferramentas utilizadas, em especial as detalhadas análises estatísticas, já são conhecidas há muitos anos. Profissionais como os Black Belts também já exitiam, mas não de uma forma estruturada. Toda companhia tem seu engenheiro que volta e meia resolve problema. O novo é o uso da metodologia como prática generalizada em toda a empresa.

É novo também o papel dos profissionais. Hoje o trabalho de encontrar soluções se transformou em carreira, e bem valorizada.(...)

N
ão sem razão, nos Estados Unidos os faixas-pretas têm sido disputados a tapas, stock options e gordos salários. Uma rápida visita aos principais sites americanos de recrutamento deixa claro como estes profissionais estão valorizados. Invariavelmente, o número de vagas abertas para Black Belts está cravado em três dígitos por site.
 
     
 

No Brasil, ainda que lentamente, começa-se a observar o mesmo movimento. Até poucos meses, Black Belts eram profissionais exóticos encontrados em meia dúzia de empresas. A partir do final do último ano, dezenas de companhias no Brasil se empolgaram com os resultados dos faixas-pretas e e entraram em corrida alucinada para ter seus próprios solucionadores de problemas. (...)

A Divisão de Spicer Cardans da Dana Sistemas Automotivos entrou de cabeça no Seis Sigma. Contratou a Siqueira Campos, empresa especializada em formação de Black Belts, e está treinando 10 profissionais para serem os primeiros faixas-pretas da Dana em todo o mundo. "Nós somos os primeiros das mais de 300 divisões da Dana a empregar o Seis Sigma", afirma Jader Hilzendeger, gerente geral de operações da Divisão Spicer Cardans Mercosul da Dana. A empresa vai investir US$ 100 mil neste primeiro ano com o treinamento de seus funcionários. "a partir de agora, o Seis Sigma será a lanterna na popa do nosso barco", afirma Hilzendeger.

A Dana quer, dentro de pouco tempo, ter casos de sucesso como da divisão de Lâmpadas Fluorescentes da General eletric no chile. O índice de defeitos nos tubos de vidro matriz de onde saem as lâmpadas era altíssimo. No momento do resfriamento, uma boa parte trincava e se perdia. Depois de uma análise detalhada de dados estatísticos, um Black Belt descobriu que a pressão do gás vindo da rua não era uniforme. Regulou a pressão em todas as saídas e conseguiu reduzir para quase zero o número de defeitos, garantindo uma economia de alguns milhões de dólares.

A Dana, a exemplo da GE, também pretende formar seus Black Belts em casa e não vai ao mercado contratar ninguém, pelo menos a curto prazo. Praticamente todas as empresas brasileiras estão fazendo o mesmo, assim como fizeram as enpresas americanas quando embarcaram no Seis sigma. Mas, numa carreira na qual se mede o sucesso pelos resultaados fianceiros, em pouco tempo as companhias brasileiras devem repetir uma prática que agora ganha corpo nos Estados Unidos: contratar "headhunters" para buscar os melhores faixas-pretas. "É um mercado que vai começar a pegar fogo em pouco tempo, são profissionais muito valorizados", afirma Reinaldo Vasconcelos, gerente geral de Sistemas de Qualidade na área de Manufatura da Kodak.

Perder profissionais da área custa caro. em média, uma empresa desembolsa entre US$ 10 mil a US$ 15 mil para formar um Black Belt. O curso dura cerca de um ano e meio. Talvez o que seja mais importante, porém, é que o profissional fica a par de todos os pontos vulneráveis da companhia. (...)